A bolha do bitcoin vai estourar? E daí?
- 2 de jan. de 2018
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Para todo lado só o que se fala é do vertiginoso crescimento do valor do bitcoin. A moeda virtual subiu de USD 900 em janeiro deste ano para quase USD 12.000 agora em dezembro. Mais de 1.200% de aumento em um único ano. Junto a todas as notícias que relatam esse crescimento, um alerta: a bolha vai estourar.

Mas, supondo que de fato exista uma bolha e que ela venha a se romper rapidamente, sabe o que isso significará para o futuro do bitcoin? NADA! Sim, NADA, em maiúsculo mesmo. Um estouro de bolha NÃO vai afetar o bitcoin.
Explico. A maioria das pessoas não entendeu ainda que a natureza do bitcoin é diferente do dinheiro comum, também chamado de fiat money (dinheiro criado por um ente superior, no caso o estado). O bitcoin e a maioria das criptomoedas são baseadas em um conjunto de quebra-cabeças matemáticos distribuídos por todos os computadores que usam a moeda. E isso faz toda a diferença.
O lastro é o país
No caso das moedas tradicionais, vinculadas a estados (ou grupo de estados, como o Euro), a garantia de que uma moeda continuará tendo valor depende da capacidade dos integrantes do estado (o próprio governo, mas também o setor privado) de entregar bens, serviços e outras moedas em troca de seu dinheiro. Isso não acontece com o bitcoin exatamente porque ele não depende de um único país (ou grupo de países).
Imagine um país que tenha dificuldades financeiras. Os casos abundam mundo afora. Ao não conseguir honrar seus compromissos, tende-se a uma desvalorização de sua moeda. Acontece, entre outros fatores, um desequilíbrio na oferta e na demanda. Por um lado, o país em dificuldades poderá ter que emitir mais moeda para honrar suas dívidas (ou adotar outras estratégias mais complexas, mas com o mesmo objetivo). Por outro, haverá menor procura pelo seu dinheiro (troca da moeda por outras mais fortes). Uma série de outros efeitos mais complexos decorrem, sem dúvidas, como aumento das taxas de juros, do desemprego, entesouramento etc. Mas o mais importante, para esta análise comparativa com o bitcoin, é entender que o “lastro” moderno das moedas está muito mais ligado à credibilidade econômica do ente emissor do que a qualquer outra coisa. Em outras épocas, as moedas nacionais já foram garantidas pelo estoque de ouro dos países, depois pelo estoque de dólar. Mas, hoje, a garantia de uma moeda é dada pela credibilidade econômica daquele que cria o dinheiro.
Isso pode ser perverso em algumas situações. Por vezes, moedas sofrem até mais do que deveriam em um dado momento por conta de expectativas futuras. Se uma moeda começa a perder valor, se o indicadores econômicos do país não vão bem, etc, o mercado pode passar a temer que o país tenha que emitir mais moedas no futuro, ou que a oferta da moeda aumente, e com isso “precificam” a possível futura queda em valor presente.
O “lastro” do bitcoin
Diferentemente das moedas tradicionais, o bitcoin não está lastreado na confiança dos indicadores econômicos de um estado. Para entender melhor isso, é preciso explicar dois aspectos fundamentais das criptomoedas que compõem o seu “lastro”.
O primeiro é que o bitcoin não pode ser entesourado, capturado ou retirado de circulação por uma autoridade superior. Assim, os bitcoins que ai estão continuarão circulando, não importa o que aconteça. A circulação de uma moeda tradicional pode ser reduzida ou ampliada de acordo com o manual econômico do ministro da economia de plantão, para conter crises. Mas, qualquer que seja a doutrina econômica seguida pelo governante – aumentar caixa, ou estimular o consumo – ira gerar desagrados. E abalará a confiança no estado. Se optar por aumentar o caixa, agradará setores financeiros, mas desagradará o setor produtivo. E será criticado. Se optar por estimular o consumo, agradará produtores, comerciantes e a população, mas desagradará o setor financeiro. E será criticado também. Ao final, é grande a chance de que qualquer que seja o caminho escolhido, a simples intervenção do estado na circulação da moeda gere uma redução na confiança – ou seja, no lastro da moeda tradicional.
O segundo aspecto é que o bitcoin não pode ser criado por vontade de alguém. Sua fundamentação matemática – sua alma – está vinculada à solução de complexas questões matemáticas que demandam tempo. Sabe-se quantos bitcoins existem no mercado hoje. Quantos existirão amanhã. Quantos existirão em 20 anos. Com isso, impede-se sua desvalorização arbitrária. O simples fato de um determinado estado poder emitir moeda – ainda que não emita – pode ser suficiente para agravar a crise de confiança em seu dinheiro. Com bitcoin isso é impossível – matematicamente.
Por conta dessas duas características fundamentais, o valor do bitcoin é comandado unicamente pela regra da oferta e da demanda. Seu valor não leva em conta a confiança que se deposita em um ou outro ente para honrar seu valor de face. Não leva em conta os riscos inerentes de decisões de política econômica – acertadas ou não. É pura e simplesmente o que o mundo todo, os milhões de usuários do bitcoin, estão aceitando pagar por ele.
O bitcoin não será afetado por um estouro de bolha
De fato, é possível que exista uma bolha no mercado de bitcoins. Pode ser. Pode não ser. Mas o que é certo é que seu valor vai variar. Vai subir ainda. E vai cair também. Assim o é com qualquer item que é regulado pela oferta e pela demanda.
Pode ser que muitos dos que compraram bitcoins recentemente o tenham feito como especulação, esperando o momento adequado para a venda, com a realização dos lucros. E pode ser que isso derrube mesmo o valor da criptomoeda.
Mas aqui é que está a grande diferença: eventual queda, ainda que abrupta, não vai afetar a credibilidade da moeda. Diferentemente de uma moeda estatal, que tem seu valor intimamente ligado à confiança que se deposita em seu ente emissor, o bitcoin desvincula confiança de valor. Ele pode cair para 1 dólar amanhã, e ainda assim será uma moeda confiável. Sua estrutura e sua confiança não se abalam com a variação de valor, diferentemente do que acontece com as moedas tradicionais.
Esse aspecto não tem sido tratado pela imprensa, e nem mesmo pelos especialistas. A maioria das análises disponíveis é alarmista, dizendo que um estouro de bolha é eminente e que isso poderá acabar com o bitcoin.
Mas pouca gente tem observado que no caso do bitcoin, valor e credibilidade são distintos. Se nas moedas tradicionais existe um valor de face (o valor que se atribui a uma moeda), no bitcoin isso não existe. Bitcoin é agnóstico a valor. Ele só se interessa com sua credibilidade.
Se de fato houver um estouro de bolha, será uma experiência única para testar a resiliência desse novo conceito de moeda. Acredito que o bitcoin, como estrutura, e não como valor, passará ileso por ela. Pode ser que leve um ou dois anos para recuperar seu valor após um estouro de bolha. Mas olhando no médio prazo (mais de 5 anos), como estrutura de confiança, acredito que ela se mostrará muito mais segura do que moedas tradicionais com relação a resistência a bolhas.
Edição 01: moeda vs commodity
Como apontado por alguns, inclusive por Gustavo Franco – vide edição 02 a seguir -, o bitcoin, em muitos aspectos, é mais semelhante a uma commodity do que a uma moeda. Como qualquer commodity, não tem valor de face, mas apenas valor de mercado. De fato, se ele se chamasse bitgold ao invés de bitcoin talvez as confusões fossem menores.
Isso não quer dizer que as criptomoedas sejam puramente commodities, que em regra são negociadas em mercados futuros. Em alguns casos elas se comportam de forma parecida com o mercado de capitais, tais como as ações. Mas nesse caso seu valor está, novamente, vinculado à credibilidade de um ente emissor (a empresa que faz o ICO, tal como as moedas são vinculadas à credibilidade de um estado).
Ou seja, as criptomoedas, até onde conhecemos, parecem ser um misto de moeda, commodity e ações, dependendo de qual delas está em questão.
Edição 02: Valor intrínseco – anonimato?
Gustavo Franco trata com muita propriedade da estrutura de funcionamento do bitcoin. Entretanto, aponta como o principal fator para a sua popularidade o fato de prover anonimato, e que esta seria uma demanda empresarial atual para fins lícitos e ilícitos.
Esse argumento não parece ser adequado. Dizer que o bitcoin provê anonimato é falso. Todas as transações são abertas e rastreáveis. É possível fazer isso a partir de qualquer computador ligado à rede do blockchain, ou mesmo através de websites, como o BlockExplorer. Claro, as transações são identificadas por hashes de carteiras virtuais que não são necessariamente relacionadas a pessoas físicas ou jurídicas. Mas é possível seguir todo o caminho que um bitcoin percorre em toda a sua existência. Com isso, o rastreamento será sempre possível. Alguns países, como ocorre na Europa e nos EUA, permitem o uso de bitcoins de forma oficial, desde que exista um cadastro prévio em alguma corretora regular, com os dados de identificação das carteiras associados a pessoas físicas ou jurídicas para transações superiores a determinados valores.
Claro, há usos ilícitos do bitcoin. Assim como há usos ilícitos de moedas tradicionais – ou alguém aqui duvida da existência de doleiros? Mas, acreditem ou não, é muito mais fácil rastrear o fluxo do dinheiro – lícito ou ilícito – no bitcoin do que no mercado tradicional de moedas.
Outro aspecto a ser considerado é quer há empresas sérias fazendo transações enormes com o bitcoin. Um exemplo de hoje, apenas para ilustra é a transação do bloco #497911, de mais de 29 mil bitcoins. Ou seja, mais 340 milhões de dólares. Neste mês de dezembro de 2017 estão sendo realizadas cerca de 360 mil transações com bitcoin por dia, em uma média de mais de 1 bilhão de dólares negociado por dia em movimentações. Apenas em um único dia, 28 de novembro deste ano, o total negociado ultrapassou os 3 bilhões de dólares.
É difícil imaginar que transações nesse volume, com diversas ultrapassando a casa das centenas de milhares de dólares, realizadas a todo minuto, em um ambiente rastreável, sejam fruto apenas de um pseudo anonimato.
Não temos estudos sobre isso, mas parece que os fatores que mais estão atraindo grandes players para o mercado de bitcoin são outros. Eu apostaria na velocidade, ausência de burocracia e no baixo custo da transação. Especialmente para transações internacionais. Quem já realizou transferências licitamente entre países sabe a burocracia e o custo envolvidos. Necessidade de contratos comprovando a contratação, intermediação de mais de um banco, às vezes dois o três etc. A realização de um swift é cara, burocrática e lenta. Com bitcoin isso é quase instantâneo.
Precisamos de mais estudos a respeito, mas parece-me bastante razoável concluir que, dadas as características acima, o pseudo anonimato não é o principal atrativo do bitcoin, como acredita Gustavo Franco.
Edição 03: Tulipas
Marco Aurélio Ebner comentou no Facebook apenas “Tulipas…”. Fazia referência, obviamente, à bolha das tulipas na Holanda, nos anos de 1600. O alerta é importante, porque também naquele momento – e talvez pela primeira vez na história – pessoas investiram grandes valores em um mercado futuro e ficaram sem nada. E o mesmo pode acontecer, sim, com quem está utilizando o bitcoin como investimento, de forma especulativa, no caso de um estouro de bolha.
Mas há uma característica no bitcoin que o diferencia dos contratos futuros de tulipas. E foi exatamente esse ponto que comentei acima: é preciso diferenciar o bitcoin como estrutura de negociação do bitcoin como instrumento para armazenamento de valor.
Em sua característica de armazenamento de valor ele está tão sujeito a volatilidade quanto quanto qualquer outra commodity, tal qual as tulipas. Por isso, se usado como investimento, deve ser considerado de risco – risco de ganhar ou de perder.
Entretanto, o bitcoin deve ser visto também – e insisto nisso – não como uma commodity, nem como uma moeda com valor de face, mas sim como um ferramental seguro e confiável para transações. No bitcoin, diferente das moedas tradicionais, duas características essenciais – conservação de valor (reserva) e meio de troca (liquidez) – são dissociadas. Isso o diferencia do caso das tulipas, que eram apenas uma commodity, negociada em mercado futuro, sem qualquer valor intrínseco.
Os valores intrínsecos do bitcoin, como dito acima, repousam sobre outros aspectos – credibilidade e confiança na estrutura matemática distribuída – que resultam em maior velocidade, ausência de burocracia e baixo custo da transação. Por isso, o bitcoin pode, sim, ser afetado por grande desvalorização ou valorização, como no caso das tulipas, mas isso afetará apenas os especuladores, e no curto prazo, e não os que de fato veem na tecnologia uma alternativa aos meios de troca tradicionais.
Edição 04: Bolhas e teto de emissão
Natalie Unterstell comentou que a existência de um teto de emissões de bitcoin, previsto no próprio modelo, impediria a criação de uma bolha. E esse é um aspecto interessantíssimo para melhor entender a diferença entre o bitcoin utilizado como commodity e o bitcoin utilizado como meio de troca.
Sim, a existência de um teto de emissões, prevista no protocolo do bitcoin em 21 milhões de unidades fracionáveis, e a impossibilidade de emissões livremente por qualquer ator do sistema, impedem que ele, em si, como ferramenta, se torne uma bolha. Não haverá mais bitcoins disponíveis do que os previstos.
Mas isso não impede a existência de bolhas no mercado de bitcoins. Mas as duas coisas são distintas e não podem ser confundidas, como explicado acima.
Talvez uma boa analogia seja a chamada bolha imobiliária ocorrida na década passada nos EUA. De forma semelhante ao bitcoin, a quantidade de imóveis é limitada. Não há mais imóveis do que a quantidade permitida pela área de terras disponíveis. Mas mesmo assim, houve a bolha.
Mas é importante distinguir os imóveis do mercado imobiliário (cheio de derivativos e contratos futuros pendurados nos imóveis). O que houve, à época, não foi uma crise nos imóveis, mas uma crise no mercado de imóveis. Quem perdeu dinheiro era quem estava de alguma forma vinculado a contratos derivados dos imóveis. Bancos com contratos insolventes e títulos podres, pessoas com hipotecas e prestações muito acima do valor de mercado do imóvel etc.
Entretanto, os imóveis em si, seu valor inerente – servir de moradia – não foi afetado. Casas continuaram servindo de abrigo perfeitamente para quem pretendia um lar. Terrenos continuaram servindo para a construção de casas e prédios para moradia ou para fins comerciais. As casas não ficaram menos aconchegantes ou os escritórios menos úteis.
O que estourou em 2008 foi uma bolha no mercado de imóveis, e não dos imóveis propriamente ditos.
É essa a diferença fundamental que precisa ser compreendida quando se avalia a possibilidade de uma bolha no mercado de bitcoins. Sim, ela pode existir – e algum dia pode acontecer mesmo, seja hoje, seja num futuro distante. E isso pode afetar drasticamente o valor de negociação do bitcoin. Mas não deve afetar o valor intrínseco da criptomoeda, que é servir melhor e de forma mais confiável a transações do que as moedas tradicionais.
Portanto, é preciso tratar as duas coisas de forma distinta: bitcoin como tecnologia – que tem se provado a cada mais ser valiosa – do mercado especulativo em torno do valor do bitcoin. Apenas assim será possível medir os riscos envolvidos em cada um desses dois ambientes, e melhor utilizá-lo.
*Artigo publicado e editado originalmente na página do Linkedin do autor.












































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